
Com 43 anos de trajetória, a Veste S.A. construiu seu nome no varejo brasileiro a partir de marcas fortes, posicionamento premium e um olhar atento ao lifestyle do consumidor. Hoje, esse legado ganha uma nova camada: a sustentabilidade deixa de ser narrativa e passa a estruturar o crescimento da companhia.
Fundada em 1982, ainda como Restoque, a empresa consolidou sua presença no mercado ao longo de décadas com movimentos estratégicos, da abertura de capital, em 2008, à expansão do portfólio com marcas como Le Lis, Bo.Bô, John John, Dudalina e Individual. O foco em inovação, experiência e omnichannel ajudou a posicionar o grupo entre os líderes do segmento de alto padrão no país. Agora, o próximo passo passa por integrar moda, tecnologia e responsabilidade socioambiental de forma definitiva.
“A sustentabilidade passou mesmo a fazer parte da nossa estratégia. Então, passamos a ter nossos relatórios de sustentabilidade, metas públicas”, afirma Laís Silveira, gerente de ESG da companhia. A mudança é menos sobre discurso e mais sobre compromisso. Ao tornar metas públicas (até 2030) a empresa passa a operar com uma lógica de accountability contínua. “Quando uma empresa assume metas públicas, esses compromissos deixam de ser ajustáveis conforme o momento do mercado”, explica.
Esse movimento se ancora nos três pilares que estruturam a atuação da Veste: ambiental,social e governança. No ambiental, a companhia vem avançando na medição de impactos ao longo de toda a cadeia [da produção à distribuição], com foco em uso eficiente de recursos, redução de resíduos e incentivo à economia circular. No social, o olhar se volta para pessoas [dentro e fora da empresa], enquanto a governança sustenta tudo isso com transparência, ética e processos estruturados. “A governança é o alicerce de tudo que uma empresa faz”, resume Laís.

Na prática, isso se traduz em metas concretas. A empresa já submeteu seus compromissos climáticos ao Science Based Targets Initiative (SBTi, organização global que valida metas corporativas de redução de emissões de gases de efeito estufa – GEE), alinhando sua estratégia de descarbonização a padrões globais. “Isso nos dá um compromisso de descarbonização de toda a nossa operação”, afirma.
Outros avanços incluem a eliminação de plásticos desnecessários, a substituição por materiais reciclados pós-consumo e a ampliação do uso de energia renovável, já implementada em escritórios e fábricas, com expansão prevista para as lojas. No campo de matérias-primas, o avanço também é mensurável. A meta inicial de 25% de materiais certificados já foi superada. “A nossa meta era 25%, chegamos em 26,3%”, comemora Lais.
Mas talvez o ponto mais interessante esteja em como essas diretrizes chegam ao produto, e ao consumidor. “O nosso compromisso passa por dois caminhos: produzir uma moda com cada vez menos impacto ambiental e com cada vez mais impacto social positivo”, diz Laís. No segmento premium, isso se traduz em escolhas que vão além da estética. Fibras naturais, certificações de origem e durabilidade passam a ser parte do valor da peça. “No luxo, a gente sempre prioriza fibras naturais, e matérias-primas certificadas oferecem mais qualidade”, afirma. “Eu acho que é a combinação perfeita.”
Ainda assim, o comportamento do consumidor não acompanha totalmente esse avanço. “Eu acho que ainda não… Não é um fator de decisão de compra”, reconhece. A expectativa, no entanto, é de mudança, especialmente com novas gerações mais conscientes.
Se o produto evolui, a cadeia produtiva também passa por transformação, e a tecnologia tem papel central nisso. Um dos exemplos mais avançados é a rastreabilidade do algodão, feita em parceria com iniciativas do setor. “Todo esse processo é registrado em blockchain… Então ele só existe porque a tecnologia avançou”, explica. Ao longo da cadeia, cada etapa [da fazenda à confecção] é registrada, permitindo que o consumidor tenha acesso à origem da peça. “Ele tem a comprovação de todos os passos que aquele produto passou.”
A inovação também chega ao desenvolvimento de materiais e processos. No denim, por exemplo, novas tecnologias reduzem impacto ambiental. “O jeans evoluiu muito. Hoje tem tecnologia laser que praticamente desenha a lavagem na peça”, explica. Já em outras frentes, fibras alternativas ganham espaço, como o bambu, que cresce rápido, não depende de irrigação e ainda captura carbono.

Se o ambiental é transversal, o social ganha contornos mais específicos dentro das marcas. A Le Lis mantém, há anos, uma parceria com o Instituto Protea, com mais de R$ 2 milhões destinados ao apoio no diagnóstico e tratamento do câncer de mama. Já a John John conecta moda e cultura ao apoiar a Casa dos Curumins, na zona sul de São Paulo. “A gente firmou uma parceria… E o lucro da venda também vai ser revertido para o projeto”, conta.
Internamente, a agenda social também se traduz em metas estruturadas. A companhia quer atingir 40% de pessoas pretas, pardas e indígenas em cargos de liderança até 2030 [hoje, o número está em 32%]. Para acelerar esse processo, criou programas de formação como o Desenvolve Talentos Negros. “Foram mais de mil horas de formação. E, e ao final, eles podem ser promovidos”, diz Laís.
Mas, por trás das metas e iniciativas, existe um desafio menos visível – e talvez o mais complexo: a cadeia. “Parece uma coisa simples, mas é bem complexa”, afirma, ao falar sobre a substituição de plásticos em toda a operação. Expandir soluções sustentáveis para fornecedores de diferentes regiões envolve logística, custo, disponibilidade de material e adaptação de processos. “O que é difícil não é o contato, é a expansão da ação como um todo.”
É justamente nesse ponto que a sustentabilidade deixa de ser conceito e vira operação. Para os próximos anos, 2026 e 2027, o foco da Veste está em consolidar essa estrutura: ampliar o alcance das metas ambientais em toda a cadeia, fortalecer a governança, avançar em inovação tecnológica e escalar o impacto social.
Ao mesmo tempo, o futuro da moda sustentável, na visão de Laís, depende de uma mudança que vai além das empresas. “Eu tenho dois grandes desejos: que o consumidor seja cada vez mais consciente e que a tecnologia avance na reciclabilidade das roupas no pós-consumo.” Hoje, esse ainda é um dos principais gargalos da indústria. “A gente ainda não tem uma tecnologia escalável, é muito complexo”, admite.
Enquanto o setor ainda busca respostas, a Veste já opera com metas, processos e prazos definidos, tratando sustentabilidade como estrutura de negócio, não como tendência.



