
Norte-irlandês, Jonathan Anderson ganhou experiência em diferentes ambientes de moda. Com coleções para a Topshop, parceria com a Uniqlo e criações para a Versus Versace, label jovem dada por Gianni Versace para a sua irmã, Donatella, Anderson se encontrou na moda de luxo.
Após mais de 11 anos na espanhola Loewe, o designer entra em nova empreitada, como head do feminino, masculino e da alta-costura na maison de Christian Dior. Maria Grazia Chiuri, última diretora criativa da Dior antes da chegada de Anderson, enfrentou uma onda de críticas nas redes sociais por parte dos fãs de moda, por peças ditas como chatas ou fora de contexto, apesar de ter mais que dobrado a receita da maison sob sua direção.

Ganhador, nos dois últimos anos consecutivamente, do prêmio de Designer do Ano pelo British Fashion Council, Jonathan Anderson gosta de se divertir com a moda. Como na bolsa pássaro, nos itens de bexiga, nos tops de folha, na coleção-cápsula Pixel e na linha com grandes agulhas de tricô, para a Loewe. Assim também na clutch de pombo e os sapatos de sapo, para a sua marca homônima, JW Anderson.
Além disso, o estilista apoia a sétima arte, como em seu trabalho nos figurinos do filme “Rivais” (“Challengers”, 2024) e no longa “Queer” (2024), ambos do diretor Luca Guadagnino. De mesmo modo contempla a pauta LGBTQ+, como na campanha “Drink Your Milk”, em parceria com a organização do ator britânico Jonathan Bailey, The Shameless Fund.
O LVMH, conglomerado de luxo dono tanto da Loewe, quanto da Dior, reconhece e aposta no talento de Anderson. Em 2015, a holding nomeou o estilista como membro permanente do júri do LVMH Prize, prêmio que catapulta talentos no mundo da moda, como os vencedores anteriores Marine Serre, Nensi Dojaka, Supriya Lele, Tomo Koizumi, Chopova Lowena, Wales Bonner e Marques’Almeida. Bem como, atrás na linha do tempo, em 2013, além de anunciá-lo como designer da grife espanhola, o grupo comprou porção minoritária de sua marca própria, que existe desde 2008.
Mas não é só a holding que atesta o sucesso do estilista: o renomado índice Lyst, que mede a temperatura das vinte etiquetas mais quentes da estação, colocou sua Loewe no Top 5 nas cinco últimas listas. Enquanto a JW Anderson apareceu em posições 18, 19 e 20 ao longo do mesmo período.

Assim como na diversão, Anderson é disruptivo em sua criatividade. Formado em moda masculina pela London College of Fashion, uma de suas principais criações na Loewe e sua bolsa favorita, a Puzzle foi pensada inicialmente para ser masculina.
Conhecido por sua estética moderna e shapes diferenciados em roupas e acessórios, ele também mistura, em seu estilo de criar, o que é considerado “norma” para o masculino e o feminino. Não apenas pela recente decisão das marcas que chefia de fazerem desfiles co-ed – peças masculinas e femininas desfiladas em conjunto -, Jonathan faz um blend entre os gêneros na moda que muitos chamam de andrógina, termo que não aprecia: “Olho para a moda independentemente do sexo”, disse o criativo em entrevista.
Analisando-se o trabalho que fez na Loewe, com atenção ao apelo artesanal, criando, inclusive, o Loewe Foundation Craft Prize – que premia o artesanato moderno e as visões artísticas dos artesãos -, é provável que Anderson mantenha esse compromisso em uma casa como a Dior, principalmente por estar incumbido, também, da criação de alta-costura, algo novo para ele. Com ateliês hiper-preparados, a maison conta com 20 a 40 profissionais dedicando incansáveis horas para a confecção de peças.
Outra inspiração que Jonathan Anderson mantém e certamente levará à Dior é a arte. Com influência artística do avô, que colecionava peças de cerâmica, o designer cria formas ousadas e audaciosas, brinca com as silhuetas e as cores. Além de sua família, ele se tornou um colecionador voraz de arte, com pinturas de Paul Thek e desenhos de Isamu Noguchi, o que potencialmente acentuou seu tino geral para a área e resulta em trabalhos como a repetida colaboração para acessórios da Loewe com o designer têxtil John Allen, baseando-se nos designs dos tapetes do artista; e a coleção-cápsula de roupas e acessórios com os artistas britânicos Gilbert & George para a JW Anderson, que mostrou uma visão da masculinidade e modernidade. Será um casamento perfeito para uma maison que bebe da fonte das artes plásticas, vide a alta-costura de verão 2025, com referência à pintura surrealista “Eine Kleine Nachtmusik”, (Dorothea Tanning, 1843).
É salutar relembrar que, com novo estilista no comando, vem, literalmente, nova direção criativa para a marca. Dessa forma, pode-se esperar que Anderson leve a Dior a uma moda de frescor comedido. Depois da atitude feminista das peças de Maria Grazia Chiuri, junto à ascensão do conservadorismo e da extrema-direita no mundo, ligadas ainda à baixa nas vendas do luxo no maior polo consumidor do planeta, a China, Anderson certamente manterá seu bom-humor, porém respeitando a herança e códigos tradicionais da maison do Monsieur Dior, com toques comerciais do chamado luxo acessível.



