
Flores, vasos, fantasmas, hologramas e até uma cadeira dedicada à “beleza interior” ocupam a Luciana Brito Galeria a partir de 22 de agosto. A casa modernista projetada por Rino Levi, em São Paulo, recebe simultaneamente “Flores e Vasos”, coletiva que reúne fotografias de Rochelle Costi, Gaspar Gasparian e Robert Mapplethorpe, e “Imagens do Interior”, individual de Fabiana de Barros, artista brasileira radicada na Suíça desde 1985.
Com curadoria de Nessia Pope, “Flores e Vasos” parte de um dos temas mais tradicionais da história da arte para colocá-lo sob três olhares e épocas bastante diferentes. A exposição aproxima fotografias de Gasparian, Mapplethorpe e Costi e mostra como um motivo aparentemente simples – flores dentro de vasos – pode falar de forma, sensualidade, memória, afeto e vida cotidiana.
Nas imagens de Gasparian, sobretudo das décadas de 1940 e 1950, os arranjos são construídos em estúdio com precisão. Luz, enquadramento e posição dos objetos são rigorosamente controlados, transformando a natureza-morta em exercício de experimentação fotográfica.
Mapplethorpe leva as flores para outro território. Em suas célebres fotografias das décadas de 1970 e 1980, lírios, orquídeas e tulipas surgem contra fundos neutros, com iluminação precisa e aspecto quase escultórico. Sob a aparência clássica das composições, porém, há uma forte carga de sensualidade: as flores são tratadas quase como corpos.
Já Rochelle Costi aproxima a natureza-morta da intimidade e da vida doméstica. Em trabalhos realizados entre 2015 e 2022, a artista utilizava flores encontradas em seu cotidiano e vasos de sua coleção, além de garrafas, potes e outros recipientes improvisados. Cor, excesso e uma estética próxima do kitsch entram nas composições, carregadas de memória e afeto.

Se “Flores e Vasos” olha para objetos que nos cercam, “Imagens do Interior” vira a lente para algo bem mais difícil de enquadrar: nós mesmos. Fabiana de Barros retorna ao Brasil com trabalhos resultantes de uma pesquisa desenvolvida ao longo dos últimos dez anos e investiga a ideia de “beleza interior” em tempos dominados pela autoimagem, pela tecnologia e pela fabricação permanente de identidades.
Gravuras, colagens, assemblages de resina mineral e instalações compõem a mostra. Um dos destaques é “Você acha que a gente pode ser o jogo e a regra do jogo ao mesmo tempo?” (2026), realizada em colaboração com o cineasta suíço Michel Favre. Instalada no jardim projetado por Roberto Burle Marx, a obra utiliza projeções holográficas em ventiladores espalhados pelo espaço. Imagens de explosões atômicas aparecem ao lado de perguntas como “Será que o sofrimento é um utensílio para construir a beleza interior?”, embaralhando tecnologia, memória e imaginação.
A discussão ganha participação direta do visitante em “Beleza Interior” (2026), uma grande poltrona de madeira e alumínio envolvida por uma bruma artificial. A obra retoma uma experiência realizada pela artista em Genebra, em 2008, quando promoveu um “concurso de beleza interior” inspirado simbolicamente na antropofagia modernista. Agora, quem ocupa a cadeira é convidado a entrar nesse jogo de observação e autoanálise.

Fabiana também apresenta as séries “Imagens do Interior” e “Paisagem”, além do inédito “Próximos Fantasmas”, conjunto de cinco trabalhos que toma o fantasma como metáfora das presenças invisíveis (pessoais e coletivas) que atravessam a experiência humana.
As duas exposições abrem no sábado, 22 de agosto, das 12h às 17h, na Luciana Brito Galeria, na Avenida Nove de Julho, 5.162, em São Paulo, e ficam em cartaz até 17 de outubro de 2026.


