
Os caftãs, jaquetas e vestidos com apliques de tecido que formam santos, orixás e figuras abstratas levam a assinatura de Adriana Meira. A estilista nasceu em Brumado, no interior da Bahia, onde mantém hoje o ateliê, e construiu a marca a partir de patchworks de camurça e neoprene aplicados em linho, jeans e algodão.
A relação com a costura começou na infância, em Brumado. “Eu via minhas avós fazendo. Eu tinha avó por parte de mãe que era costureira e fazia aquelas colchas enormes de patchwork, fuxico. E eu sempre imaginava que aquilo podia ir para a roupa. Só que eu não queria exatamente aquilo”, conta. A outra avó bordava. A observação desse trabalho guiou a escolha profissional. “Eu nunca tive dúvida do que eu queria, mas eu acho que era muito empírico”, diz.

A formação técnica veio depois da mudança para Salvador. Adriana trabalhou em fábrica, cursou faculdade e se aproximou do funcionamento da cadeia de produção. “Aí eu entendi um pouco mais sobre a parte mecânica da coisa, como funcionava”, afirma. Nesse período, atuou como estilista de jeans e de moda masculina em uma fábrica da capital baiana. Mais tarde, passou por Brasília, onde começou a testar uma produção autoral. “Eu comecei a fazer umas camisetas. Aí eu percebi que funcionava, meus amigos compravam, amigo de amigo indicava”, lembra.
Foram dez anos em São Paulo, onde se estruturou a base de clientes. A virada seguinte veio com a pandemia. Adriana voltou para Brumado e se instalou em uma casa de família na zona rural. “Hoje eu moro na zona rural da minha cidade, em uma casa que era do meu tataravô. Meu pai depois recomprou na mão de um primo e estava meio que abandonado”, conta.

Com clientes concentrados em São Paulo, Adriana estruturou um esquema de envio que liga o sertão ao mercado da moda. “Eu construí um esquema de logística que eu consigo entregar em São Paulo em 48 horas”, afirma. A equipe fica dividida entre a cidade de Brumado, a casa-ateliê e uma colaboradora na Paraíba. “Eu tenho uma costureira que trabalhou comigo em São Paulo, mas voltou para a Paraíba. Ela ainda faz algumas coisas para mim. E minha equipe aqui”, diz.
A paisagem do sertão e a espiritualidade orientam a criação. “É muito natural. O convívio com a terra, ver o desabrochar da seca, a chegada da chuva. Isso tudo alimenta muito a minha alma para transcrever isso para o tecido. Como eu sou apaixonada pela Caatinga”, diz.

A base católica da família e a presença de orixás e santos aparecem nas peças. “A espiritualidade também, porque eu trabalho muito com orixá e com santos. Eu acho que isso tudo, a natureza, o histórico católico da família também, isso me envolve muito para criar”, explica.
Depois da participação no projeto Mãos na Moda, com artesãos de Vitória da Conquista, e da circulação em desfiles e exposições, Adriana planeja consolidar o ateliê-casa como destino para clientes. A ideia não inclui loja física em centro urbano. “Eu não penso em loja física, não. Quero começar a receber meus clientes aqui para passar temporadas comigo, a gente ter um pouco dessa visão do sertão que muita gente às vezes fica deturpado, como pobreza, como carência, e a gente vai mostrar um pouco da riqueza que é”, afirma.

A proposta inclui imersões com música, comida e convivência. “Ficar aqui, botar um forró para tocar, uma comida boa, típica. A gente fica muito ligado que a Bahia é só Salvador e litoral. A gente conhece muito pouco do interior da Bahia, que é gigantesco”, diz.


