
Em um país onde corpos negros ainda enfrentam violência, silenciamento e exclusão, a arte se afirma como território de resistência. É nesse contexto que surge “Afrotranstopia – Movimentos Coreográficos”, projeto do coreógrafo e pesquisador Mario Lopes, que foi diretor de movimento e coreografia da ópera “Porgy and Bess”, encenada no Teatro Municipal de São Paulo sob direção de Grace Passô. As apresentações acontecem nos dias 24, 25 e 26 de outubro, no Sesc Belenzinho, em São Paulo.
O projeto apresenta a trilogia “Movimento”, formada por “Movimento I – Parado é Suspeito”, “Movimento II – Kodex Konflikt” e “Movimento III – Celebration, Espumas Pós-Tsunami”. A programação inclui ainda uma roda de conversa com artistas e público, os Diálogos Abertos.
A trilogia consolida-se como um marco da dança negra contemporânea, articulando memória, ancestralidade e futuro em obras que combinam força estética e urgência política. Enquanto “Parado é Suspeito” e “Kodex Konflikt” abordam o racismo e a violência contra corpos negros, “Celebration, Espumas Pós-Tsunami” propõe a celebração como gesto de cura coletiva.
Os Diálogos Abertos, realizados após a exibição do filme “Movimento III”, ampliam a reflexão. São encontros entre artistas, pesquisadores e público que discutem identidade, resistência, tecnologia e transformação social.
Inspirado em sua tese “Espumas: algoritmos coreográficos”, Lopes propõe a “Afrotranstopia” como um espaço onde corpo e código se fundem. Cada gesto, respiração e silêncio se tornam dados de um laboratório vivo de existência. O corpo negro é entendido como um sistema de informação e ancestralidade, um arquivo em constante atualização.
As espumas, metáfora central da pesquisa, representam matérias que resistem à solidez colonial: resíduos, fragmentos e memórias que escapam ao controle e se recombinam em novos sentidos. “Afrotranstopia” atua nesse terreno instável, dissolve hierarquias, rompe a linearidade do tempo e transforma a dor em potência criativa.
“Cada corpo é um algoritmo que aprende com o encontro, com o erro e com o improviso”, define Lopes. Nesse universo, dançar é também codificar e reprogramar, transformar a coreografia em ferramenta de cura e insurgência.
Mais que um espetáculo, “Afrotranstopia” é rede e rito, espaço de comunhão onde tecnologias afroindígenas se atualizam e conectam o visível ao invisível. Ao propor a dança como código vivo, o projeto reafirma que arte, política e espiritualidade são dimensões inseparáveis de um mesmo pulso.
Como resume o coreógrafo: “‘Afrotranstopia’ é, antes de tudo, realização. É uma questão política realizar sonhos considerados distantes das existências negras”.
Sesc Belenzinho – Rua Padre Adelino, 1.000, Belenzinho, São Paulo, SP.



