
Para refletir: após a temporada de inverno 2025 internacional terminar, a imprensa mal conseguiu se recuperar do jet lag e foi surpreendida pela entrada de Demna na direção criativa da Gucci.
Se a saída de Sabato foi uma resposta aos números, por que a escolha de Demna faz sentido ao grupo Kering, se diante de tantas polêmicas, em seu comando na Balenciaga, os resultados foram do céu ao inferno diversas vezes?
Uma década atrás, quando a monetização pelas redes sociais impulsionavam o mercado de luxo a criar virais resultando em cifras, hoje essa fórmula está desgastada. Nada parece prender o foco das pessoas, o desejo de ter/comprar migrou para o que podemos relembrar dos tantos períodos na história onde a escassez segmentou quem tinha de quem não.
Aí entramos no X da questão: a tal democratização da moda, o tal do faça você mesmo, que muitos looks de Demna incentivaram uma geração a seguir – camisetas puídas de brechós, patworks, jeans sujos, colaborações com segmentos esportivos, sacos de lixo, iphones antigos, capacetes e etc. – deram à massa o poder de se apropriar da estética e independentemente do seu poder aquisitivo replicar, reproduzir e se incluir na trend.
Esse público, na sua grande maioria, consumiu de fato a trend, foi à loja e comprou a capa do celular, o boné ou o cinto, itens de ticket médio baixo comparados as roupas, e além disso não se tornou fixo ou fiel a marca, ao primeiro cancelamento queimou ou se desfez dos produtos para seguir o que estava em alta na vez.
Mas e as clientes de fato? Essas ficaram acuadas durante todo este tempo, investiam em um visual, mas perceberam que estavam cada vez mais parecidas com geral, e claro que quem consome o luxo quer mesmo é não parecer todo mundo. Então eis que o tal quiet luxury surge, e a desculpa do corte, materiais e exclusividade (foquem nesta palavra) ganha força na moda.
Dificultar o acesso, reforçar o DNA da marca aplicando os códigos nas peças e simplificando as formas conseguiram fazer com que as clientes se sentissem novamente seguras a voltar a investir. Mas e a Gucci? Sabato até tentou seguir essa linha. Uma das primeiras imagens reveladas do trabalho dele a icônica Daria na piscina com pesada corrente dourada no pescoço, trouxe o sexy do Tom Ford, o luxo dourado das ferragens das malas da label, e o ar solar ou menos dark foi a pincelada que ele tentou implementar.
Mas é impossível comparar uma maison pautada pela roupa com uma que nasceu pelas malas. Ao chegar, Demna encontrará uma mesa retalhada pelo tempo, com inúmeros acertos, mas com bases estéticas tão próprias e ao mesmo tempo distintas que caberá a genialidade incontestável do mesmo para encontrar o fio condutor do que será a Gucci, e neste ponto considero sensata a escolha do nome por parte do grupo.
O desafio estará na palavra desejo. Os números em queda logo após o anúncio condizem com o fator surpresa, afinal, não era algo esperado ou pré-anunciado, e neste contexto de mundo América-Euro centralizada em total desconexão ou até mesmo ruindo, tornará o desafio ainda maior e acredito que precisará de muito mais que uma BalenciUcci ou GucciAga para acender os olhos novamente para horsebit. Mas veremos, até lá muitos devaneios como este podem surgir e dividirei com vocês!



