
Entre a coragem de se ouvir e a recusa em se encaixar, Bebé transforma vulnerabilidade em linguagem no lançamento de “Dissolução”, seu terceiro álbum de estúdio. Mais do que um novo trabalho, o disco marca uma virada artística profunda: é o momento em que a cantora, compositora e multi-instrumentista paulista abandona a necessidade de controle absoluto para confiar no improviso, na imperfeição e na própria intuição. O álbum chega às plataformas nesta quarta-feira (20.05) como um manifesto delicado sobre transformação, liberdade e identidade.
Inspirado pela ideia alquímica de que é preciso dissolver para reconstruir, “Dissolução” nasce de um processo íntimo de ruptura. Ao longo do disco, Bebé atravessa memórias, inseguranças, luto, amadurecimento e desejo de expansão artística enquanto constrói uma sonoridade que aproxima jazz, indie, canção brasileira e experimentação contemporânea. Pela primeira vez, ela também assume a produção musical do álbum [movimento que, segundo a artista, exigiu o fim de uma antiga insegurança]. “O que precisou morrer em mim foi a insegurança”, afirma.

A mudança de postura atravessa não apenas as letras, mas toda a construção sonora do projeto. Em vez de perseguir perfeição técnica, Bebé escolhe preservar texturas, ruídos e emoções espontâneas. “A indústria está fazendo músicas perfeitas. Eu quero registrar a linha do tempo daquela gravação”, explica. Em tempos de inteligência artificial e produções cada vez mais polidas, ela acredita justamente na imperfeição como traço humano. “O que vai distinguir o humano do robô é a imperfeição.”
Parte importante dessa nova fase também passa pela relação criativa com o irmão, o músico e produtor Felipe Salvego, parceiro fundamental em “Dissolução”. Mais do que colaborador, ele aparece como uma referência formadora na trajetória da artista, alguém que apresentou a Bebé, ainda na infância, universos como o rock progressivo, o jazz, a música clássica e até autores como Clarice Lispector. “Foi ele que me apresentou Pink Floyd, Yes, filosofia…”, conta. Juntos desde os primeiros experimentos musicais dentro de casa, os dois desenvolveram uma conexão intuitiva que atravessa o álbum. “É uma sinergia muito incrível”, resume a cantora.
Com apenas 22 anos, a artista demonstra uma maturidade rara ao falar sobre criação. Em “Dissolução”, muitas composições surgiram de forma intuitiva, quase como epifanias noturnas. Fragmentos antigos ganharam novo sentido quando ela decidiu abandonar filtros e julgamentos internos. “Eu não posso podar o que bate no meu coração”, resume. O resultado é um álbum que soa ao mesmo tempo sofisticado e emocional, contemplativo e profundamente vivo. A presença da guitarra como elemento central reforça essa nova fase.

Influenciada por nomes como Milton Nascimento, Lô Borges, Esperanza Spalding, Radiohead e o universo do indie contemporâneo, Bebé elabora um trabalho que escapa de fórmulas fáceis sem perder acessibilidade. Entre harmonias abertas, improvisos e arranjos orgânicos, ela cria um universo próprio, algo que também aparece nas participações de Tássia Reis, Tuyo, Brisa Flow e Marissol Mwabá.
Outro eixo emocional importante do disco surge em “Variante Estrelar”, escrita no dia da morte de Lô Borges. Abalada pela perda de um de seus maiores ídolos, Bebé transformou o luto em homenagem. “Eu estava tão triste, tão triste… E usei esse sentimento para desenvolver a música”, conta. A faixa nasce como agradecimento e reverência à obra do músico mineiro, uma das bases afetivas e sonoras do álbum.
Além da música, “Dissolução” também expande o imaginário visual da artista. Referências como “Alice no País das Maravilhas”, “O Mágico de Oz” e universos lúdicos aparecem na estética do projeto, construído ao lado de uma equipe majoritariamente jovem e feminina. Para Bebé, imagem, moda, performance e música fazem parte do mesmo organismo criativo, um pensamento artístico que reforça ainda mais sua identidade autoral.

Em um cenário dominado pela velocidade e pelo consumo instantâneo, Bebé escolhe outro caminho: o da escuta, da densidade emocional e da construção estética cuidadosa. Sem abrir mão da ambição de alcançar o mundo, ela parece cada vez mais interessada em criar uma obra que sobreviva ao tempo, e não apenas ao algoritmo.
“Liberdade é a coragem de fazer o que precisa ser feito”, diz a cantora. E talvez “Dissolução” seja exatamente isso: o som de alguém atravessando o medo para finalmente ocupar o próprio espaço.


