
Criado entre diferentes culturas, países e referências estéticas, Emmanuel Lejeune construiu uma linguagem autoral que reflete uma trajetória marcada pelo deslocamento, pela observação e pela sensibilidade artística.
Filho de mãe brasileira e pai belga, o designer cresceu em um ambiente onde a arte e o fazer manual sempre estiveram presentes – do pai que gostava de desenhar às avós e bisavós costureiras. Ainda criança, o desenho já surgia como um gesto natural, quase inevitável.
A percepção de que esse repertório multicultural poderia se transformar em uma linguagem estética consistente veio aos poucos, mas se consolidou aos 17 anos, quando vivia em Madri.

Durante um processo de orientação profissional na escola, Lejeune percebeu que nenhuma das opções tradicionais o atraía. Incentivado pela mãe, passou por experiências em cursos curtos de moda em Paris e Londres. Foi nesse momento que encontrou afinidade com um universo que reunia cultura, desenho, construção e trabalho manual – especialmente a modelagem, área pela qual desenvolveu uma paixão duradoura. A decisão foi definitiva: em 2000, retornou a Madri para cursar uma formação completa em moda, seguida por um ano de pós-graduação.
A capital espanhola teve papel determinante na construção de sua visão criativa. Entre museus, arquitetura e viagens frequentes a Barcelona, Lejeune absorveu referências que ainda hoje atravessam seu trabalho.
Mas foi sobretudo o flamenco e a movida madrilenha que deixaram marcas profundas. Do flamenco, vieram a sensualidade intensa, o poder do movimento e o fascínio pelo traje da bailarina – em especial o babado, elemento recorrente em suas criações.

Da vida noturna madrilenha dos anos 1990, herdou o gosto pela extravagância, pela fantasia e pela liberdade criativa no vestir. “Era um ambiente onde se via absolutamente de tudo. Aquilo mudou minha concepção de moda”, relembra.
Essa combinação entre classicismo e ousadia aparece de forma evidente em “Devaneio”, coleção inverno 2026 que marca o lançamento oficial de sua marca no Brasil. O nome não é casual: a coleção nasce como um grande sonho construído a partir de múltiplas referências culturais. Entre elas, a socialite italiana Marchesa Luisa Casati, musa de artistas e estilistas do início do século 20; o desconstrutivismo russo e o cubismo, que inspiram peças de alfaiataria com construções fragmentadas; e o New Look de Christian Dior, refletido em corsets com quadris acentuados.
O cinema também ocupa lugar central nesse imaginário. O filme “My Fair Lady” surge como uma das principais fontes de inspiração, especialmente os figurinos criados por Cecil Beaton para Audrey Hepburn. Os chapéus exuberantes das corridas de Ascot, as mangas exageradas e o romantismo teatral do filme se traduzem em vestidos e camisas de volumes amplificados e babados dramáticos. Uma referência afetiva, herdada da avó – grande admiradora de Hepburn – que apresentou ao designer o cinema clássico e a estética das décadas de 1920 a 1950.

Entre os pilares do trabalho de Emmanuel Lejeune estão a camisaria e a alfaiataria. As camisas, muitas vezes com mangas volumosas e construção escultural, tornaram-se peças-chave de suas coleções, assim como os blazers e corsets, que equilibram rigor técnico e expressividade. Para o designer, a moda deve vestir mulheres de todas as idades, corpos e origens. “Nada é mais frustrante do que uma moda que não veste todo mundo”, afirma.
Após anos vivendo fora do Brasil, Lejeune decidiu retornar ao país há cerca de três anos, motivado pelo desejo de se reconectar com suas raízes.
Lançar sua primeira coleção em território brasileiro foi, segundo ele, uma experiência emocional e desafiadora. “Foi uma aventura criar para um mercado que eu não conhecia. Ver essa coleção ser bem recebida é uma grande honra”, diz.

Hoje, baseado em São Paulo – onde reconhece o principal polo da moda nacional -, o designer começa a consolidar sua marca no mercado de luxo brasileiro, com presença em multimarcas e planos de expansão para o e-commerce.
Além do feminino, Emmanuel Lejeune já prepara a entrada no masculino a partir da próxima coleção de verão, ainda que de forma experimental. O interesse pelo mercado de acessórios também está no horizonte, possivelmente por meio de colaborações futuras. Para ele, o crescimento da marca deve ser gradual, construído com consistência e coerência estética.
Atento à importância das redes sociais, o designer vê nas plataformas digitais uma ferramenta essencial para aproximar o público de seu universo criativo. Campanhas, eventos e colaborações com modelos e influenciadoras ajudam a fortalecer a identidade da marca e ampliar seu alcance. “É uma forma imediata de mostrar quem somos”, resume.
Entre o chic europeu e a sensualidade brasileira, Emmanuel Lejeune constrói uma moda que é, acima de tudo, reflexo de uma vida em trânsito – um devaneio sofisticado onde memória, cultura e técnica se encontram.



