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Masp revisita coletivo Cada, que desafiou a ditadura chilena

por Redação CHNews
27/03/2026
Tempo De Leitura: 4 minutos de leitura
Foto: Arquivo Cada/Doação de Lotty Rosenfeld e Diamela Eltit/Coleção Museo de la Memoria y los Derechos Humanos Collection

O Masp (Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand) apresenta, de 2 de abril a 2 de agosto, a exposição “Colectivo Acciones de Arte: democracia radical”. Com curadoria de André Mesquita, curador do Masp, a mostra apresenta fotografias, filmes, documentos, publicações, desenhos e cartazes de oito ações de arte realizadas pelo Colectivo Acciones de Arte (Cada) entre 1979 e 1985. As intervenções ocorreram sobretudo em espaços públicos, de forma rápida e, em diversos casos, anônima, como estratégia para contornar os mecanismos de censura e vigilância da ditadura chilena.

Fundado em Santiago, em 1979, o coletivo desenvolveu ações que tensionaram as relações entre arte e política em um contexto de repressão e agravamento de desigualdades sociais e econômicas. O grupo foi formado pelos artistas Lotty Rosenfeld (1943–2020) e Juan Castillo (1952–2025), pela escritora Diamela Eltit (1949), pelo poeta Raúl Zurita (1950) e pelo sociólogo Fernando Balcells (1950), com mudanças em sua composição ao longo do tempo.

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Em “NO+” (1983), a mais conhecida das ações do Cada, o coletivo espalhou pela paisagem urbana o texto aberto “NO+” [Não mais] para que fosse completado pelos cidadãos e movimentos sociais de acordo com suas demandas específicas. A frase passou a ser apropriada com diferentes enunciados, como “NO+ dictadura” [Não mais ditadura], “NO+ muerte” [Não mais morte], “NO+ hambre” [Não mais fome], entre muitos outros. Essa participação popular converteu a ação em uma poderosa forma de expressão coletiva, que ultrapassou os limites do grupo e antecipou simbolicamente o Plebiscito de 1988, marco do fim da ditadura no Chile. 

Foto: Arquivo Cada/Doação de Lotty Rosenfeld e Diamela Eltit/Coleção Museo de la Memoria y los Derechos Humanos Collection

As ações do Cada funcionaram como práticas de participação e de denúncia coletiva das carências e coerções impostas pelo regime, tornando-se fundamentais para compreender as articulações entre arte e política na América Latina das décadas de 1970 e 1980.

“O slogan ‘NO+’ consolidou-se como uma expressão de militância na América Latina, sendo apropriado em intervenções urbanas e manifestações em diferentes contextos políticos. Nos anos finais da ditadura chilena, foi amplamente utilizado em ações que reivindicavam seu fim, além de aparecer em mobilizações do movimento feminista Mujeres por la Vida, que também conta com fotografias e cartazes de suas ações nesta exposição. Há também registros mais recentes de sua utilização em novos contextos políticos, como a fotografia publicada em um jornal de uma mobilização por recursos públicos para a construção de um hospital no Chile, em 2009”, comenta o curador Mesquita.

Foto: Arquivo Cada/Doação de Lotty Rosenfeld e Diamela Eltit/Coleção Museo de la Memoria y los Derechos Humanos Collection

Registros fotográficos e em vídeo da ação “¡Ay Sudamérica!” [Ai, América do Sul!] (1981) documentam o voo de seis aviões sobre diferentes bairros de Santiago, de onde foram lançados cerca de 400 mil panfletos que afirmavam a ideia de que todas as pessoas são artistas. As imagens evocam a memória política do bombardeio que atingiu o palácio de La Moneda, em 11 de setembro de 1973, pelas forças militares do general Augusto Pinochet (1915–2006), que destituiu violentamente o governo de Salvador Allende (1908–1973), em uma inversão simbólica que substitui bombas por mensagens que conectam a arte com os espaços da vida.

Em “Inversión de escena” [Inversão de cena] (1979), o coletivo articulou objetos cotidianos que, sob o regime militar, adquiriram novas conotações. Na ação de 1979, organizou uma passeata de caminhões de leite em direção ao Museo Nacional de Bellas Artes, cuja entrada estava obstruída por um grande pano branco. A passagem dos veículos foi percebida como um desfile de tanques de guerra. O pano branco e o leite remetiam simbolicamente à carência alimentar do povo chileno e às consequências associadas à violência da ditadura. Ao bloquear a entrada do museu com o tecido branco, o Cada indicava o deslocamento do olhar da arte para fora das instituições e em direção à cidade, transformando a vida cotidiana em uma obra coletiva.

Tags: andré mesquitacadacensuraChileColectivo Acciones de Arte (Cada)Colectivo Acciones de Arte: democracia radicalditaduraexposiçãomaspmostra
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