
Em meio a um cenário de transformação digital, exigências por sustentabilidade e desafios de competitividade tributária, o varejo de moda brasileiro busca se reinventar. Em entrevista exclusiva ao CHNews, Edmundo Lima, diretor-executivo da Abvtex (Associação Brasileira do Varejo Têxtil), e Marcelo Prado, diretor do Iemi – Inteligência de Mercado -, analisam os movimentos do setor, o impacto do e-commerce, a evolução do comportamento do consumidor e os caminhos para uma moda mais ética, formalizada e alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
O setor de moda no Brasil atravessa um momento complexo. Segundo Lima, a conjuntura atual é marcada por desafios estruturais, como a concorrência desleal com plataformas estrangeiras, e por um ambiente de profundas transformações. “Estamos vendo inovações tecnológicas, maior consciência do consumidor e um avanço na busca por práticas mais sustentáveis e transparentes”, afirma.
Prado reforça o cenário de adaptação: “O consumo de vestuário cresceu 42% em número de peças nos últimos 25 anos, mas com uma mudança significativa no estilo – roupas mais leves, informais e com melhor proposta de valor”. Ainda assim, o volume de peças vendidas em 2024 permanece abaixo do patamar pré-pandemia. “Apesar da recuperação em valor, puxada pela inflação, o setor enfrenta dificuldades relacionadas ao envelhecimento populacional, falta de mão de obra e defasagem tecnológica na indústria nacional”, pontua.
Um dos vetores de transformação mais visíveis é o crescimento acelerado do e-commerce. De acordo com o Iemi, as vendas online de roupas no Brasil cresceram 2,5 vezes desde a pandemia e já movimentaram R$ 29 bilhões em 2024, representando quase 10% das vendas totais do varejo de moda. As redes sociais, a conveniência da compra digital e a diversidade de ofertas impulsionam essa tendência.
Por outro lado, Lima faz um alerta: “Plataformas internacionais operam com tributação muito inferior à das empresas brasileiras, o que cria um desequilíbrio competitivo que afeta empregos, arrecadação e o fortalecimento da indústria nacional”.
O comportamento do consumidor também tem pressionado o setor por mais transparência e ética. “O consumidor está mais atento à origem dos produtos, às condições de trabalho e ao impacto ambiental das marcas”, observa Lima. Nesse contexto, a Abvtex atua para fortalecer seu programa homônimo, que já certificou mais de 4.700 fornecedores, garantindo práticas legais e responsáveis nas cadeias produtivas. Essa certificação tem se tornado um diferencial competitivo, sobretudo para marcas comprometidas com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. “O programa atua diretamente nos ODS 8, 12 e 17, promovendo trabalho decente, consumo responsável e parcerias sustentáveis”, explica o diretor da Abvtex.
A digitalização tem transformado profundamente o relacionamento com o consumidor e a gestão de processos internos. Inteligência artificial, blockchain, controle de qualidade e gestão de estoques são tecnologias já em uso ou em expansão no setor. Para Lima, no entanto, é fundamental que essas inovações ocorram dentro de um ambiente regulatório justo, que não penalize as empresas nacionais. Além disso, a entidade aposta em políticas de inclusão e diversidade como pilares do futuro da moda brasileira. “Queremos ampliar boas práticas, investir em formação e fortalecer a inovação como motor de um setor mais competitivo, ético e sustentável”, finaliza.
Leia a seguir entrevista completa cedida ao CHNews.
Como o sr. avalia o atual momento do varejo de moda no Brasil?
Edmundo Lima, diretor-executivo da Abvtex: O varejo de moda brasileiro vive um momento desafiador, mas também de transformação. Temos acompanhado movimentos de inovação, melhoria na produtividade, uso da IA, maior conscientização dos consumidores e uma demanda crescente por práticas mais sustentáveis e transparentes. Ao mesmo tempo, enfrentamos uma concorrência desequilibrada com e-commerces internacionais que operam com vantagens tributárias e não cumprem com as regulamentações brasileiras exigidas das empresas nacionais, o que exige uma atuação firme por parte das autoridades para garantir a isonomia competitiva entre os diferentes canais de venda.

O varejo tem crescido? Quais são os números atuais do mercado?
Marcelo Prado, consultor e diretor do Iemi: Apesar das instabilidades econômicas e das mudanças no perfil de consumo, o setor segue resiliente. Nos últimos 25 anos, o consumo de vestuário no brasil cresceu 42% em número de peças, com uma mudança significativa no estilo das roupas, com produtos mais leves, informais, confortáveis e com proposta de valor adequada, segundo dados do Iemi. De acordo com Prado, apesar de um crescimento modesto em relação a 2023, o volume ainda está abaixo do patamar pré-pandemia (2019). Isso pode indicar uma mudança no comportamento do consumidor. O valor nominal movimentado cresceu significativamente, especialmente em relação a 2019. Isso pode ser explicado pelo aumento de preços (inflação) ao longo dos anos. O setor mostra recuperação em valor, mas ainda enfrenta desafios no volume de peças comercializadas.
As projeções preliminares para 2025 indicam um crescimento mais expressivo em comparação a 2024, tanto em volume quanto em valor. Espera-se uma aproximação mais significativa dos níveis de produção em volume observados em 2019, enquanto os valores nominais devem superar com maior margem os registrados naquele ano.
Mas o setor de vestuário enfrenta desafios complexos. Entre eles, o envelhecimento da população, a falta de mão de obra, a necessidade de renovação do parque industrial instalado no Brasil, com investimento em tecnologia a forte penetração de produtos importados através das empresas crossborders com benefícios fiscais.
Como a Abvtex tem observado a evolução do comportamento do consumidor brasileiro no segmento de moda?
Lima: O consumidor brasileiro está cada vez mais atento à origem dos produtos, à responsabilidade socioambiental das marcas e à experiência de compra digital. Essa evolução tem mobilizado o setor a se adaptar, promovendo maior rastreabilidade, inovação em tecnologia e comprometimento com práticas éticas. A Abvtex acredita que esse comportamento pode ser uma força propulsora para o desenvolvimento sustentável da cadeia, desde que existam condições equânimes de competição entre empresas nacionais e internacionais.
O que tem impulsionado o crescimento do segmento de moda nos marketplaces e no e-commerce?
Lima: A conveniência, facilidade de compra, os preços competitivos e a ampliação da oferta têm sido fatores determinantes. Entretanto, é preciso destacar que o crescimento de plataformas internacionais de e-commerce, que recolhem uma carga tributária muito inferior a aplicável às empresas brasileiras cria um desequilíbrio tributário que prejudica o varejo e a indústria nacional, impactando diretamente a manutenção e geração de empregos, a geração de renda, a arrecadação de impostos e o fortalecimento da economia local.
Prado: As vendas de roupas pelo e-commerce cresceram 2,5 vezes após a pandemia e hoje representam quase 10% de todas as vendas de roupas do varejo, no Brasil, tendo movimentado R$ 29 bilhões em 2024 com uma taxa média de crescimento anual próxima a 40% ao ano. O grande impulso para as vendas online nesse segmento foram as restrições da pandemia, com o consequente fechamento das lojas físicas por vários meses seguidos, tanto no ano 2020, quanto em 2021, o que despertou a sensação de emergência das principais redes de varejo e mesmo de pequenos lojistas (viabilizados através dos marketplaces), no desenvolvimento desse canal de venda. Além disso, os consumidores se acostumaram a ficar mais atraídos com esse modelo de compra de roupas, passando a incorporá-lo ao seu dia a dia, ainda que haja uma predileção por parte da maioria na experiência de compra em lojas físicas. Os grandes fatores de impulsionamento das vendas online, além das conveniências associadas, estão relacionadas ao modelo de comunicação através de redes sociais, que já permitem conectar diretamente um anúncio a uma ferramenta de compra, preços mais atrativos e a facilidade de comparação de produtos e marcas, e da pesquisa de modelos e tamanhos desejados, que às vezes não estão disponíveis no estoque de uma loja física.
Qual o papel das grandes redes varejistas na promoção da moda sustentável e ética?
Lima: As grandes redes varejistas têm papel estratégico na consolidação de práticas responsáveis e na orientação ao mercado, pois conseguem induzir o cumprimento da legislação vigente e boas práticas ao longo de suas cadeias produtivas. A Abvtex atua em parceria com essas empresas para promover compromissos claros com o trabalho digno, a formalização da cadeia, a produção e o consumo cada vez mais consciente e sustentável.
Como a Abvtex garante que seus fornecedores sigam práticas éticas e legais?
Lima: Por meio do Programa Abvtex, promovemos um rigoroso processo de avaliação e monitoramento dos fornecedores vinculados às redes de varejo associadas, com base em metodologia e critérios técnicos, sistematização e auditorias independentes. O programa exige o cumprimento da legislação trabalhista, previdenciária, ambiental e de segurança do trabalho, contribuindo para uma cadeia produtiva mais ética, formalizada e transparente.
De que forma a digitalização impactou os modelos de negócio dos associados da Abvtex?
Lima: A digitalização acelerou a transformação nos modelos de negócio e processos, desde a relação com o consumidor até a gestão da cadeia produtiva. Isso inclui o uso de tecnologias em diversas dimensões: inteligência artificial, melhoria do controle de qualidade, gestão de estoque, canais de venda e experiência de compra do consumidor. No entanto, é essencial que a transformação digital ocorra em um ambiente de competição justa e com regras claras para todos os atores do mercado.
Qual a importância da certificação do Programa Abvtex para os fornecedores e marcas?
Lima: A certificação funciona como um selo de confiança e desenvolvimento da cadeia produtiva, assegurando que aquele fornecedor cumpre com a legislação vigente e critérios rigorosos de conformidade. Isso fortalece a reputação das marcas e contribui para a melhoria contínua da cadeia produtiva, incentivando a formalização, promovendo o trabalho decente e a sustentabilidade.
A informalidade ainda é um gargalo na cadeia produtiva da moda. Como a entidade trabalha para reduzir esse problema?
Lima: Uma das formas de combatemos a informalidade é por meio do Programa Abvtex, que estimula a regularização dos fornecedores e a profissionalização da cadeia. Investimos em capacitação, sensibilização e parcerias com instituições públicas e privadas para criar um ambiente mais seguro e justo para todos os envolvidos. Outra forma é a união de forças com entidades empresariais e governos para maior rigor na fiscalização.
Quais iniciativas sustentáveis têm se destacado entre os associados da Abvtex?
Lima: Temos visto avanços significativos em práticas de economia circular, uso de matérias-primas sustentáveis ou recicladas, redução de resíduos e melhoria da eficiência hídrica e energética. Muitas dessas ações estão sendo integradas às estratégias das marcas associadas, reforçando o compromisso do setor com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
Como o Programa Abvtex contribui para o combate ao trabalho análogo à escravidão e à informalidade?
Lima: O programa atua na prevenção e correção de irregularidades, com auditorias independentes, treinamentos e um sistema de monitoramento contínuo. São mais de 4.700 fornecedores certificados, com impacto direto sobre milhares de trabalhadores. É uma ferramenta eficaz para informar e educar o empresário sobre a legislação vigente, identificação e mitigação de riscos e promoção de um ambiente produtivo mais inclusivo, seguro, justo e responsável.
A Abvtex possui metas de sustentabilidade alinhadas com os ODS? Quais?
Lima: Sim. Nosso programa e as iniciativas da entidade estão alinhados principalmente aos ODS 8 (Trabalho Decente e Crescimento Econômico), ODS 12 (Consumo e Produção Responsáveis) e ODS 17 (Parcerias). Promovemos ações concretas em prol da formalização, isonomia tributária, da ética na cadeia de valor e da sustentabilidade ambiental.
Há incentivos para que pequenas confecções entrem na cadeia formal e se tornem fornecedoras certificadas?
Lima: Sim. Trabalhamos com programas de capacitação e suporte para ajudar micro e pequenas empresas a se adequarem aos critérios do Programa Abvtex e a estarem aptas a ingressar na cadeia produtiva dos varejistas associados. Acreditamos que a inclusão produtiva e a formalização são caminhos fundamentais para o fortalecimento do setor e para a geração de emprego e renda com dignidade.
Quais tendências devem moldar o futuro do varejo de moda no Brasil?
Lima: As tendências incluem maior digitalização, envelhecimento populacional, consumo consciente, circularidade, sustentabilidade e transparência na cadeia produtiva. A rastreabilidade será cada vez mais valorizada, assim como o engajamento social e ambiental das marcas. Porém, é fundamental que essas transformações ocorram dentro de um cenário propício à formalização dos negócios e de justiça tributária, especialmente frente aos benefícios fiscais concedidos às plataformas de e-commerce internacionais pelo governo brasileiro.
Como a Abvtex vê o papel da tecnologia (como inteligência artificial e blockchain) na rastreabilidade e transparência da cadeia produtiva?
Lima: Tecnologias como blockchain e inteligência artificial podem ser grandes aliadas para garantir maior rastreabilidade, controle de processos e verificação de conformidade. Estamos atentos às inovações e estudando como essas ferramentas possam ser massivamente incorporadas às práticas do setor, sempre respeitando os princípios de ética, segurança e transparência.
O que podemos esperar das ações da ABVTEX nos próximos anos em relação à inclusão, diversidade e inovação no setor?
Lima: A Abvtex está comprometida em ampliar a agenda de inclusão e diversidade no setor da moda, fomentando boas práticas entre os associados e promovendo ações formativas com foco na equidade. Também continuaremos investindo em inovação e tecnologia como pilares para uma moda mais sustentável, ética e competitiva, dentro de um ambiente regulatório justo.
Como o setor varejista está se preparando para atender às exigências do consumidor mais consciente e engajado?
Lima: O setor vem se adaptando com mais transparência, práticas ESG consolidadas e investimento em tecnologia, inteligência artificial e rastreabilidade. O consumidor consciente é um agente transformador, e as empresas brasileiras têm buscado responder a essas demandas com responsabilidade. Contudo, essa transformação precisa ser acompanhada por políticas públicas que garantam igualdade de condições competitivas.



