
No coração do Bixiga, em São Paulo, um sobrado de três andares abriga parte fundamental da história do teatro brasileiro. Recém-lançada em evento com artistas e jornalistas no dia 22 de outubro, a Casa de Acervo.Oficina reúne mais de 3 mil itens – entre figurinos, adereços e objetos de cena – que atravessam três décadas de produções do Teatro Oficina Uzyna Uzona. O acervo pode ser visitado a partir de novembro, com agendamento prévio, e também está disponível em formato digital no site acervo.teatroficina.com.
Localizada a menos de 1 km da icônica sede projetada por Lina Bo Bardi e Edson Elito, a casa foi criada para preservar e organizar o patrimônio material da companhia. Fundada em 2023, tornou-se um espaço de memória e pesquisa onde o passado e o presente se encontram (figurinos históricos podem ser reutilizados em novas montagens, mantendo o acervo vivo e em constante transformação).
“O acervo é fundamental não só pela memória, mas porque também alimenta as novas produções. Às vezes, um figurino criado décadas atrás continua em cena. É um patrimônio vivo”, afirma Elisete Jeremias, diretora-geral da Casa de Acervo.Oficina.

O projeto, que conta com sete artistas da Cia. Uzyna Uzona e dez profissionais e estudantes das áreas de moda, biblioteconomia e museologia, foi contemplado pelo edital ProAC 38/2024 da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo. A iniciativa, intitulada Plano de Preservação e Catalogação do Acervo do Teatro Oficina, terá duração de 12 meses, até março de 2026, e se divide em três eixos principais:
– Preservação e conservação do acervo têxtil – Com oficinas formativas e consultoria da restauradora Cláudia Nunes, referência internacional na área.
– Catalogação digital de figurinos – Feita pela equipe da casa por meio da plataforma Tainacan, desenvolvida pela UnB em parceria com o Ibram, que garante acesso público e gratuito ao acervo.
– Adequação da infraestrutura – Com melhorias de segurança, prevenção contra incêndios e estrutura de trabalho, além da criação de um plano de sustentabilidade econômica para o futuro da casa.
“Estamos deixando um bem cultural para o futuro. Pesquisadores, escolas e estudantes poderão acessar esse material e estudar a linguagem da companhia”, afirma o ator Victor Rosa, coordenador-geral do acervo.

O conjunto de obras do Oficina começou a ser estruturado em 1992, após o incêndio que destruiu parte do teatro. Desde então, a preservação tem sido um esforço coletivo de artistas e técnicos. Elisete destaca nomes como Otto Barros e Cida Melo, camareira que há mais de 25 anos cuida de figurinos e adereços. “A Cida é capaz de identificar cada peça por espetáculo, personagem e ator. Ela é a guardiã desse patrimônio”, diz a diretora.
Essa lógica colaborativa é herança direta da filosofia do Teatro Oficina, que tem como símbolo uma bigorna (metáfora para a forja criativa do grupo). Os artistas participam de todas as etapas: costuram figurinos, organizam o acervo, divulgam e produzem novos espetáculos. “Essa dinâmica nos forma como artistas completos”, resume Larissa Silva, atriz e coordenadora de acessórios, que estreou na companhia em “Mutação de Apoteose” e hoje também atua na direção de cena.

Apesar do fôlego temporário proporcionado pelo ProAC, a manutenção do espaço ainda é um desafio. A Casa de Acervo.Oficina depende de apoios públicos e privados para seguir ativa, garantir aluguel, equipe e continuidade das ações de catalogação. “Manter esse espaço de pé é essencial. O acervo reflete não só a história do Oficina, mas um capítulo da cultura brasileira”, ressalta Elisete.
Tombado nas três esferas (municipal, estadual e federal) o Teatro Oficina é símbolo de resistência e experimentação. A Casa de Acervo.Oficina amplia esse legado, transformando memória em futuro e reafirmando o teatro como obra coletiva e viva. Participe, você também, da manutenção do Espaço Casa de Acervo do Teatro Oficina, por meio da chave Pix: [email protected].
Casa de Acervo.Oficina –



