
O Mata Lab, na Cidade Matarazzo, SP, apresenta o Acervo Jorge Feitosa, coleção formada ao longo de duas décadas por peças históricas garimpadas no Brasil, Europa, Ásia e Estados Unidos. Entre os itens estão uma bandeja de cobre do século 19 com cena de caça em relevo, um vaso em cristal azul-cobalto das extintas Cristalleries de Nancy e uma cornucópia de cerâmica brasileira dos anos 1960, adquirida no exterior e posteriormente trazida de volta ao país. Mais do que objetos decorativos, o conjunto parte da ideia de que a matéria carrega memória.
A exposição surgiu a partir do convite dos diretores do espaço, Carolina Friedmann e Tunico de Castro Filho, que se aproximaram do olhar curatorial do artista e de seu marido, o executivo Fábio Garcia. A seleção é guiada pelo conceito de “Memória da Matéria”, desenvolvido por Jorge Feitosa, que entende os objetos como portadores de histórias, marcas do tempo e experiências humanas. A curadoria se apoia em três eixos: arqueologia afetiva, salvaguarda e ressignificação.

Segundo o artista, a proposta dialoga com a filosofia japonesa do Wabi-Sabi, que valoriza a imperfeição e o desgaste como parte da beleza. Nesse sentido, o acervo se posiciona como contraponto à lógica contemporânea de valorização do novo, destacando o caráter biográfico dos objetos.
Para Garcia, o processo de construção da coleção também redefiniu sua relação com o colecionismo. O que começou com uma coleção de bolsas masculinas evoluiu para uma prática de curadoria baseada em pesquisa, seleção e construção de legado. A formação do acervo ocorreu de forma orgânica, a partir de visitas a antiquários e feiras ao redor do mundo.
Um episódio recente no estado do Oregon, nos Estados Unidos, marcou a transição do acervo para o público. Após se interessar por um vaso de cerâmica durante uma viagem, o casal acabou conectando a peça ao curador do Mata Lab por meio das redes sociais, o que resultou no convite para a exposição. O objeto, posteriormente recuperado, integra hoje a mostra como símbolo desse momento.

Entre os destaques está um vaso em cristal doublé azul-cobalto produzido pelas Cristalleries de Nancy entre 1920 e 1935, cuja raridade está associada ao fechamento da manufatura após a crise de 1929. Também integram o acervo um par de castiçais em cristal de chumbo da Cristallerie du Val Saint Lambert, da Bélgica, e terrinas em faiança majólica da maison GÉO, que transformavam embalagens de alimentos em objetos colecionáveis.
A coleção inclui ainda exemplares de design europeu, como as taças Golden Zuzana, criadas pelo designer tchecoslovaco Jozef Stanik, conhecidas pelo uso de esferas de ouro em sua estrutura e associadas a eventos históricos e diplomáticos.

Outro núcleo reúne porcelanas vintage da Yves Saint Laurent produzidas no Japão entre as décadas de 1980 e 1990, resultado de uma colaboração com a fabricante Yamaka International. As peças, preservadas em estado original, refletem a expansão da maison para o universo do design doméstico.
A produção brasileira também tem destaque, com itens como castiçais em bronze da Metalúrgica Abramo Eberle, do Rio Grande do Sul, e uma série de cerâmicas das décadas de 1950 a 1970 que evidenciam a adaptação local de influências europeias.
Parte do acervo é marcada por descobertas posteriores à aquisição. Um jogo de gamão comprado na Turquia, por exemplo, foi identificado mais tarde como peça do antigo Irã, feita em madeira e osso de camelo. Já uma cornucópia brasileira encontrada nos Estados Unidos foi reintegrada ao país, reforçando a dimensão histórica e simbólica da coleção.
Com a exposição, o acervo deixa o âmbito privado e se apresenta como narrativa pública, conectando design, memória e história por meio de objetos que atravessam diferentes tempos e geografias.
Mata Lab – Alameda Rio Claro, 260, Bela Vista, São Paulo, SP (dentro do complexo Cidade Matarazzo).



